Arquivo do mês: novembro 2007

Tsunami II

Voltando aos tsunamis, uma das coisas que mais me indignou na tragédia de 2004 foi a incapacidade de algo ter sido feito para preveni-la. E assim que, em minhas aulas sobre tsunami, aprendi também o que realmente aconteceu.

Na época do incidente as técnicas mais modernas que citei no outro post sobre Tsunamis não existiam (como o MOST e DART), mas o protocolo para tentar achar as ondas e estimar a formação de um tsunami estava bem estabelecido.

Assim, os pesquisadores do centro de Tsunami do Pacífico receberam e analisaram imediatamente os dados do terremoto na Indonésia, concluindo que a onda não atingiria a nenhum ponto da sua rede de abrangência. Sim, esse sistema de detecção é fruto de colaboração entre diversos países. O tsunami atingiu a Indonésia muito rápido para fazer qualquer coisa, mas eles puderam prever a chegada de uma onda mortal à Tailândia.

A imprensa na época noticiou que os pesquisadores não haviam feito nada, mesmo sabendo da onda. O que ocorreu foi: eles tentaram, muito, mas não conseguiram fazer nada!

Ao saberem que a onda poderia atingir a Tailândia (já tarde demais para alguma coisa ser feita em relação a Indonésia), os pesquisadores tentaram entrar em contato com o governo do país. Mas, diferente dos países pertencentes “a rede”, com os quais eles possuem uma linha direta, conseguir um número e conseguir falar com alguém demorou muito. E, quando eles finalmente conseguiram comunicar o problema, descobriram que a Tailândia não possuía nenhum plano de ação para Tsunamis. E infelizmente, a tragédia ocorreu.

Em termos de desastres naturais, um plano de ação inclui:

  • ter meios de prever a tragédia
  • de comunicar a população eficientemente: por meio de sirenes, TV e radio
  • ter pessoal treinado para interagir com o público e dirigir a evacuação
  • educar a população para o que fazer quando ouvir um alerta e ter preparo para lidar em uma emergência

Nada disso existia lá na época, e o alerta do Tsunami caiu no vácuo da falta de opções.

Novamente, caímos na velha situação de agirmos somente quando o desastre bate em nossa porta. Mas ao menos, senti orgulho dos pesquisadores que trabalham com a previsão dos tsunamis, sabendo que fizeram tudo o que puderam para prevenir a tragédia.

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Mudanças Climáticas e morte dos Dinossauros

Uau! Hoje assisti uma palestra excelente!Claro que se tratando de mudanças climáticas eh um pouco depressiva e alarmante também… O palestrante foi Lonnie G. Thompson, ele vem há 30 anos estudando glaciares ao redor do mundo, e comanda o Ice core paleoclimatology research group no Byrd Polar Research Center, juntamente com sua esposa, Ellen Mosley-Thompson.

Essa palestra deve ter inspirado a palestra do Al Gore… esse eh o trabalho do pesquisador por trás do ganhador do premio Nobel, e muito interessante. Os dados que os trabalhos dele e de sua equipe revelam são alarmantes: glaciares que estão desaparecendo, taxas de até 22% de perda por ano! O Parque dos Glaciares no Alaska quando foi fundado em 1912 tinha mais de 120 glaciares, hoje em dia restam apenas 26 e em menos de trinta anos eles podem ter sumido!

Os glaciares tem imensa importância: servem como indicadores de mudanças climáticas e bem como podem acelerar essas mudanças. Estudos de perfuração nesses corpos de gelo nos ajudam a entender sobre o passado, desde que tudo o que havia na atmosfera, mesmo a 2000 anos atrás, está armazenado junto com o gelo formado nesse tempo. Assim, pode-se “ler” no gelo características da atmosfera, como temperatura, composição, atividade vulcânica, emissões antropogênica de gases, composição vegetal da Terra, microorganismos… Ao se perder um glaciar, se perde também toda historia registrada ali.

Mais alarmante, muitos países dependem deles para sobrevivência, desde que das águas provenientes do degelo retiram água para abastecer a população e para produzir energia. Paises como o Peru, regiões inteiras do Himalaia, ou mesmo a Índia, que tem dois de seus maiores rios nascendo dos glaciares localizados em Naimora’nyi no Tibet, podem enfrentar imensos problemas de falta de água. E, como sempre, a carga mais pesada vai acabar nas costas dos menos favorecidos, dos mais pobres e excluídos, que são os que menos vem contribuindo para o problema do aquecimento global.

E, estudos conduzidos pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) mostram a contribuição antropogênica e natural para o aquecimento global… As causas naturais podem envolver mudanças na inclinação e orbita terrestres, mudanças solares, poeira vulcânica… Mas, estimativas de mudanças climáticas somente por esses fatores, não conseguem responder pelas atuais mudanças sendo observadas. Não há como negar a mãozinha do homem por trás de tudo isso…

E, o que fazer? Eu não vejo muitas soluções! Como ele mesmo disse, teremos que esperar o desastre bater na porta dos EUA para alguma decisão ser tomada em relação a diminuição de emissão de poluentes e politicas mais fortes de melhoramento de catalizadores de gás carbônico, ou incentivo a pesquisas de geoengenharia para mitigar o aquecimento.

Infelizmente, de novo, a pior carga vai sobrar para os menos favorecidos, que vão ter que esperar até os grandes tomarem alguma decisão. Interessante que hoje na aula de geologia, recebi um artigo discursando sobre a causa da morte dos dinossauros, e contradizendo a cimentada teoria da extinção em massa apos o choque de um asteróide com a Terra.

A autora da nova teoria encontrou evidencias que uma grande produção de fitoplankton nos oceanos somente ocorreu 300.000 apos a data que se acredita que os dinossauros morreram. Isso deveria ter ocorrido ao mesmo tempo (mesmo que mesmo tempo possa representar algumas centenas de anos em idade geológica), e não tao distantes, já que o mesmo asteróide destruiu também a vida marinha nos lugares ao redor do choque e possibilitou novas formas de se expandirem sem limites. Essa nova data coincide com uma grande explosão vulcânica, que poderia ter finalizado a lenta extinção que os grandes repteis vinham sofrendo por conta de menores explosões e da queda do meteorito.

Isso tudo me faz questionar como eh que daqui ha alguns milhões de anos os novos seres que viverem aqui vão explicar a nossa extinção? Por causa naturais ou por causa de nossa ganancia em sugar cada recurso do planeta? Mesmo que sobrevivamos, teremos que extinguir hábitos, valores e comportamentos que vem causando nossa destruição, possibilitando assim que a vida continue… Espero que essa última extinção seja o caminho que iremos escolher.

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Tsunami I

Hoje pela manhã ocorreu um terremoto no Chile (minha manhã), 7.7 graus de magnitude. Um alerta de tsunami foi emitido pelo centro de tsunamis do Pacífico, localizado aqui em Oahu. Felizmente o alerta foi cancelado um pouco depois, mas me lembrou de uma das melhores classes que tive esse semestre: uma aula sobre Tsunamis.

Bom, todo mundo já ouviu falar em Tsunami, especialmente depois do desastre na Indonésia em 2004. Mas poucos sabem de toda a ciência existente para evitar os desastres (para uma explicação básica de Tsunami veja a wikipedia).

Tsunamis são ondas, e uma das coisas mais interessantes sobre a propagação dessas ondas é que elas tem uma direção preferencial. Sabe quando jogamos uma pedra em um lago? Ondas são formadas, e elas se propagam circularmente, com a mesma intensidade e amplitude em cada círculo… As ondas do tsunami não! Elas seguem as linhas de relevo do fundo oceânico! E tendem a ter maior amplitude (e velocidade) nas cadeias meso-oceânicas.

E, o tsunami da Indonésia confirmou isso. Estudos de modelagem numérica e simulações das ondas formadas mostram isso claramente:

Essa propagação diferenciada tem imensa importância para prever se o tsunami vai atingir um local.

A previsão dos tsunamis ocorria assim:

  • quando ocorria um terremoto em qualquer ponto do oceano, os dados sísmicos de intensidade e duração do terremoto eram avaliados
  • caso houvesse risco de formação de um tsunami, um alerta era emitido
  • leitores de nível, espalhados nas ilhas oceânicas, eram analisados em busca da onda do tsunami sendo registrada
  • caso ela aparecesse nos registros, o alerta de tsunami era mantido, caso contrário, cancelado.

Mas, como essa onda não se propaga igualmente ela pode ser registrada em um ponto e não atingir nenhuma costa. Ou, pior, pode não ser registrada por nenhum sensor e atingir algum lugar. Como aqui, o Hawaii, que está numa posição privilegiada de receber tsunamis de todas as direções.

E agora?

Antes da tragédia de 2004, ninguém dava muita bola para os pesquisadores que clamavam que era necessário um sistema mais eficiente de leitura de ondas. Hoje em dia, existem medidores de pressão assentados no fundo do oceano em quase toda a volta do Pacífico. Esse programa é o DART (para ver mais: Deep-ocean Assessment and Reporting of Tsunamis). Assim, os dados desses instrumentos também são analisados para verificar se há a propagação da onda do tsunami, complementando a falta de dados nas áreas onde não existem ilhas oceânicas para a leitura do nível.

Além disso, eles contam com os dados do MOST (Method of Splitting Tsunami), um modelo que simula a geração de um tsunami por terremotos ao longo de toda a zona de subdução do Pacífico. A simulação é feita divindo a área em pequenos bloquinhos, assim quando um terromoto ocorre, eles colocam as informações do(s) bloquinho(s) correspondente(s) e, dale, lá está o tsunami que aparecerá se for gerado.

Assim, podemos ver o tsunami que chegaria ao Hawaii se uma onda tivesse sido gerada pelo terremoto do Chile:

Felizmente, as bóias do DART não registraram nenhuma anomalia, e o alerta foi cancelado. Dia normal de trabalho, e finalmente pude escrever esse post.

(O crédito dos dois filmes mostrados nesta página é da NOAA / PMEL / Center for Tsunami Research)

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